Este é um post para conscientizar as pessoas sobre uma doença rara e diferente: Doença de Addison. Ela é fatal se não tratada.
Nosso corpo funciona com os hormônios levando informações para cada célula do que fazer, de que proteínas sintetizar, de como gastar energia, enfim, os hormônios levam as ordens de funcionamento dos outros órgãos do corpo. Os hormônios são sintetizados nas glândulas. Temos várias glândulas no corpo. Quando uma glândula por qualquer razão para de fabricar o seu hormônio, o corpo entra em insuficiência e todo o funcionamento do organismo começa a sofrer.
Há inúmeras causas que levam a uma glândula a parar de fabricar seu hormônio.
Por exemplo, na Diabetes Melitus, o pâncreas é a glândula em questão e o hormônio é a insulina. A insulina é a responsável por disponibilizar a glicose ou açúcar para as células. Se há falta de insulina, o açúcar fica aumentado no sangue e não entram nas células, e as células que se alimentam de açúcar, ou seja, o corpo todo, não recebe seu alimento e a pessoa pode entrar em coma e morrer. Por isso o diabético dependente de insulina precisa se aplicar a insulina todos os dias para viver.
Na Doença de Addison, a doença que fui diagnosticada, o defeito está em outra glândula, são as supra-renais ou também chamadas de adrenais. As supra-renais produzem vários hormônios, sendo o mais importante o cortisol. O cortisol tem como uma de suas funções mandar o corpo sintetizar proteínas especiais como a adrenalina que é a responsável pelo manejo do stress do corpo. E stress eu quero dizer todo e qualquer estímulo que saia do estado de repouso do corpo, ou seja, para andar, respirar, comer, digerir alimentos, pensar, tudo são estímulos que necessitam adrenalina para o corpo funcionar, para o coração bater, para o corpo manter a pressão arterial constante e os outros órgãos funcionando. Sem cortisol a pessoa não vive, pois sem adrenalina não se vive. O cortisol também é responsável por muitas outras ações no corpo, como tomar conta das respostas inflamatórias, dos neurotransmissores do cérebro, da síntese de músculos, do próprio uso da insulina e de outros hormônios como o da tireóide. Ou seja, uma insuficiência de cortisol atinge toda a economia do corpo.
Bem, descobriram que eu não estou produzindo cortisol. Há muitas razões para isso, e não vem ao caso agora. O tratamento é repor o cortisol que eu não produzo tomando comprimidos de cortisona ou medicamento similar todos os dias, várias vezes por dia. É como eu digo, um tipo de diabetes mas de outra glândula.
Mas o que eu sentia?
Como essa doença se manisfesta?
Imagine um corpo sem adrenalina. Sem energia para viver. Ele não funciona no geral. Então o que eu sentia era uma fraqueza muito grande, um cansaço enorme, um desânimo e um humor bem depressivo porque falta energia vital. O apetite fica todo estragado porque o corpo não aproveita os alimentos, a insulina não funciona direito, dá inapetência e ao mesmo tempo um desejo grande de doces. Os órgãos não funcionam, então, a comida passava reto no intestino dando uma diarréia importante. Os rins não seguravam urina e daí minha pressão arterial caía muito. Meus músculos não se refaziam como é o normal, então, tinha uma fraqueza muscular e uma perda de massa muscular grande. Minhas atividades foram aos poucos diminuindo cada vez mais porque cada vez mais era mais difícil fazer alguma coisa, o corpo não acompanhava.
Essa situação de insuficiência persistiu por vários meses. A maior parte do ano de 2008 e eu não sabia o que era e nem os médicos. Apenas quando ficou em níveis de risco de vida que finalmente foi feito o diagnóstico.
A sensação de uma falta de cortisol aguda é exatamente a de você estar morrendo, porque literalmente você está morrendo. O corpo entra em falência completa, o coração vai diminuindo os batimentos, a pressão vai caindo, o cérebro vai parando de funcionar, todos os órgão param. Isso é chamado de Crise Addisoniana e é uma emergência médica fatal se não tratada a tempo e corretamente. Por isso que os pacientes com Doença de Addison devem usar identificação para sinalizar aos socorristas sua condição e apontar o tratamento certo.
Qualquer estímulo fora do normal que a pessoa está acostumada e medicada pode levar a uma Crise Addisoniana. É como um diabético que exagerou nos doces e precisa de mais insulina. No caso, um stress a mais, um trauma, um acidente, um stress emocional, uma infecção, um exercício físico que não está acostumado, uma temperatura ambiente extrema, muito calor, muito suor, uma cirurgia, um susto, ou seja, qualquer situação que faça a pessoa consumir mais adrenalina e cortisol pode levar a falta aguda do cortisol e disparar a Crise Addisoniana.
Como estava contando, eu vinha me sentindo bem mal durante o ano todo até que tive que ser internada para diagnóstico porque estava em mal estado geral e não tinha mais condições de ficar em casa. No hospital, descobriram essa insuficiência das supra-renais e eu comecei a tomar a reposição e tive alta para voltar para casa.
Voltei num dia com uma certa dose porém a dose estava insuficiente e no dia seguinte entrei em Crise Addisoniana tendo que ser atendida de urgência e removida para o hospital novamente.
Infelizmente o médico do PS que me atendeu na urgência me deu uma dose tóxica de cortisona e eu quase morri com o tratamento. Mostrando que mesmos os médicos das emergências não estão acostumados a tratar estes tipos de caso e por isso pacientes como eu devem andar com as instruções do tratamento junto a si. (Eu vou andar com o tratamento impresso na bolsa e na carteira porém, em um dia em casa não tive tempo de ter providenciado isso.)
Na segunda internação, foi ajustada uma dose maior de hormônios até eu não ter mais sintomas e finalmente tive alta no dia 31 de dezembro de 2008. E pudemos passar o Reveillon no Restaurante da Nanda e do Will em SFX num jantar calmo e gostoso.
Neste instante, estou tomando meu café da manhã já tendo sido medicada com minha dose matinal de hormônio e estou me sentindo bem como há muito tempo não sentia. A ponto de escrever um texto longo desses.
Espero que tenham achado interessante esse breve relato sobre a Doença de Addison. Acredito que exista muita gente não diagnosticada por aí porque simplesmente os médicos não pensam nessa doença quando as queixas são mal estar geral vago, fraqueza e coisas inespecíficas que atingem o corpo todo e podem ser confundidas com outras doenças mais simples.
Quanto a mim, além da reposição hormonal, tenho que descobrir exatamente o porquê de minhas glândulas não estarem funcionando. Mas isso já é outra história…
O importante é que com o tratamento minha vida se tornou possível e minha qualidade de vida vai melhorar consideravelmente! Legal, né?
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