Tragicomédia
“Tragicomédia, pelo Aurélio, é peça teatral que participa da tragédia pelo assunto e personagens e da comédia pelos incidentes e desenlace.”
Uma das cenas antológicas que ficou gravada a ferro em minha memória é a da governanta muda e do mordomo cego no filme Murder by Death, traduzido no Brasil por Assassinato por Morte.
Quem já viu esta cena não consegue ficar imune às risadas quando lembra dela. Se estou mentindo, por favor, manifestem-se.
O ser humano é complexo. Todos nós temos várias facetas funcionando ao mesmo tempo. E infelizmente somos “ensinados” desde criança que algumas são “boas” e outras são “ruins”. Na verdade, não há bom ou ruim. Todas são partes nossas e com o tempo, vamos conhecendo essas partes e convivendo bem com elas. E não ficando à mercê delas. Se negamos um dessas partes, esta parte que fica escondida no inconsciente adquire um poder muito maior do que de fato deve ter e começa a nos prejudicar independente de nossa vontade.
Na sexta-feira passada recebi a notícia que minha única avó que restou sofreu uma isquemia cerebral e estava no hospital.
Aconteceu o seguinte:
Estava ela e sua irmã, ambas com mais de 85 anos, sozinhas no apartamento de vovó. Minha avó sempre foi muito independente e cuidava de vez em quando da irmã surda e cega. Quando ocorreu o derrame, minha avó não ficou paralizada. Ficou muda.
Então, passaram-se horas de um diálogo bizarro entre uma muda e uma cega e surda trancadas num apartamento, até que a cega percebeu que havia algo errado com a muda, o que aconteceu bem tarde da noite.
Escrevendo isso, vejo que não há nada de engraçado nessa tragédia. Mas minha mente ainda associa com o filme.
Será um mecanismo de defesa de minha parte para ir absorvendo aos poucos a tristeza da história? Provavelmente. Assim aos poucos vou me acostumando com a doença da minha avó querida.
Se eu tivesse me recriminado logo de cara por ter lembrado de um fato engraçado ao ouvir a história da cega e da muda, não me beneficiaria dos mecanismos maravilhosos de minha mente para o meu próprio bem.
E fico tranquila por ser simplesmente humana. (Embora me chamem de Borg, mas essa é outra história…)



