Imperfeita

Liliana | Aproveita que eu não vou cobrar a consulta | Wednesday, August 1st, 2007

Minha amiga está reformando a casa dela.

Um belo dia, eu fui lá e estavam colocando o deck de madeira na frente da casa. Um deck suspenso. Iria ficar muito bonito se o mestre de obras não estivesse colocando as madeiras na largura, em vez de no comprimento.

Eu não costumo me meter na vida dos outros. Não gosto de dar palpites. Prefiro que me paguem para eu palpitar na vida alheia. Porém, naquele dia eu estava meio que fora do meu normal e, vocês sabem, todo mundo tem dias que a gente não se responsabiliza.

Eu fui falando para o sujeito: está errado. Esse deck está errado.  A madeira tem que estar de assim em vez de assim.

Minha amiga até então não tinha se tocado que realmente do meu jeito ficaria mais bonito e mais econômico. Perderia menos madeira. E ficou meio que abismada com meu jeito que disparou falando para o sujeito: tem que desfazer e fazer de novo do outro jeito. Nunca vi deck assim. O senhor já fez deck antes? Acho que não, porque nunca vi deck desse jeito.

O homem ficou puto comigo, lógico. Mas eu não quis nem saber. E ele teve que se segurar, mas retrucava: vai ter que comprar mais madeira. E eu falava: não vai, não. Faça uma armação e coloque as tábuas de assim. E o homem fervia. E eu, nem aí. Parecia que estava na minha casa e o deck era meu.

Depois de alguma discussão, de eu dizendo que basicamente o cara não sabia fazer deck e que ele nunca tinha visto um deck na vida, eu virei as costas e falei para o espaço: bem, vocês que sabem, a casa não é minha. Façam como acharem melhor. E entrei para dentro da casa para tomar mais café.

Minha amiga estava pasma e falou para mim: Liliana, você falou coisas legais lá fora, tipo mudar a orientação das madeiras, mas como você falou merda!

Ela me repreendeu porque eu dei uma bronca no empregado dela na casa dela. Eu aceitei a bronca e pedi desculpas. Eu realmente não estava num dia bom. E levei na boa porque eu faço merda mesmo e me aceito na boa. (Primeira dica: a gente não pode se levar tão a sério. A gente faz merda. E daí?)

Mas o que chamou mais a atenção da minha amiga foi a propriedade com que eu falei as merdas com o cara. Ele falava uma besteira e eu retrucava com outra besteira como se fosse a coisa mais correta do mundo. Ele falava que o jeito dele de fazer deck estava certo e eu dizia que não existia deck daquele jeito. Minha amiga dizia que eu tinha falado uma merda enorme, que existiam decks de todos os jeitos. Eu sabia, mas naquela hora, só o meu jeito é que era o certo. E ela achou o máximo eu falar com a boca cheia que o outro jeito não existia. (Segunda dica: não importa a merda que você fale. Importa é a segurança que você passa na hora de falar a merda.)

Resumindo, o cara desmanchou o deck e fez do meu jeito com o material que tinha lá mesmo. E ficou lindo. Minha amiga ficou muito feliz com o resultado final. Eu prometi que não ia mais dar palpite na reforma dela nem falar com o mestre de obras nunca mais.

Outro dia conversando com esta amiga, ela me pergunta como eu consigo falar as coisas com tanta segurança. Mas você não tem medo de falar merda?

Eu não sou perfeita, respondi. Eu vou falar merda eventualmente.  Se você não fala o que quer com medo de falar besteiras, é que você está atrás de uma perfeição que não existe. Você não é perfeita. Vai fazer bobagem. Vai falar bobagem. Você não sabe tudo. E é muita arrogância querer ser perfeita.

Por isso, eu sou muito mais eu: imperfeita e sabedora da minha ignorância. Isso sim é que me dá segurança.

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  • 5 Comments »

    1. Muito bom. Vou pedir pra você falar com meus pedreiros na obra da casa nova. Porque, merda por merda, quando bem falada, por mais que eles não gostem, obedecem!

      E obrigada pelos parabéns!

      Beijinhos…

      [Responder]

      Comment by Fabiana — August 1, 2007 @ 5:15 pm

    2. É froid dizer, mas eu sempre penso demais e nunca falo, tsc tsc!

      [Responder]

      Comment by Dricota — August 1, 2007 @ 7:25 pm

    3. De fato, mais importante do que falar certo ou falar merda é falar com convicção. Você pode dizer as coisas mais corretas do mundo, começando com “eu acho que” e ninguém vai levar a sério. Ou pode dizer absurdos começando com “é assim” e ninguém questiona.
      A convicção impõe autoridade…

      [Responder]

      Comment by Enio Luiz Vedovello — August 2, 2007 @ 1:35 pm

    4. Concordo com o Enio. Embora seja bom, de vez em qdo, assumir q se falou merda. Nem q seja para Deus, no silêncio de suas preces - para quem as faz.

      [Responder]

      Comment by worklover — August 2, 2007 @ 7:23 pm

    5. [...] eu fiquei com vergonha de ter acreditado. Mas um Chá de Hortelã resolve [...]

      Pingback by blosque.com | Contraditório Nada, O Cardoso é um Irresponsável Sem Noção — November 6, 2007 @ 5:59 pm

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