CUIDADO! CONTÉM SPOILERS!
Era o que me faltava ver este filme no Dia Dos Namorados.
Eu queria fazer um programa leve, me distrair do fato de passar o primeiro Dia dos Namorados sozinha em 25 anos e caí numa armadilha.
Em vez de me divertir, este filme foi uma tortura.
Eu juro que tentei prestar atenção nas roupas e sapatos, que estão bárbaros. Mas na verdade, o filme é a história de 4 quarentonas com problemas de mulheres na faixa de seus quarenta anos e adivinhem. Será que eu me identifiquei com elas?
Não dá para fazer um filme de contos de fadas com mulheres de quarenta e tantos anos.
Principalmente se a gente pensar que as 4 personagens são facetas de todas nós. Ninguém é uma só. Temos nosso lado Carrie, o lado Samantha, o lado Charlotte e o lado Miranda.
E foi identificada com a Carrie que comecei vendo o filme: ela escrevendo em seu Macbook, profissional, resolvida, em seu apartamento. E as semelhanças acabaram aí e um filme psicodélico para minha cabeça que me lembrou meus vinte e um anos passou tudo de novo. Ela entra numas de casar de véu e grinalda com o Big para morar numa pent-house maravilhosa na Quinta Avenida. Coisa de sonho e de me fazer morrer de inveja. Nessa hora do filme eu quis morrer.
Quando Big não aparece para o casamento e a decepciona eu voltei a um terreno mais atual, real e que eu pudesse me identificar de novo. Que alívio.
A depressão, o sofrimento, a decepção, as esperanças estraçalhadas. Isso sim eu entendo.
Miranda casada já não faz sexo com o marido. A vida profissional, o filho, as circunstâncias os afastaram. Também já vi este filme. Traição, separação, mágoa. Miranda infeliz destila veneno contra o casamento.
Charlotte é a única que está feliz. Todos os seus sonhos se realizaram. Até o da gravidez tão desejada. E até ela desempenha um papel importantíssimo em nossa psique: o da culpa de ser feliz e daquela pessoa que tem medo. Todos temos medo de sermos felizes e por causa de nossa felicidade achamos que então algo de mal vai acontecer. Não podemos acreditar que sim, está tudo bem. É isso mesmo. Estamos felizes e não tem nada de errado em ser feliz. Sem culpa, como diz o I Ching. Este é o sofrimento de Charlotte.
E Samantha?
Ahh, Samantha…
Quando eu fiz o tal teste “Que personagem de Sex And The City você é?” meu resultado foi Samantha.
Eu não passo nem perto do desprendimento sexual que Samantha demonstrou em toda a série da televisão. Porém, eu era a Samantha do filme sem tirar nem por.
E isso acabou comigo.
Samantha está num relacionamento estável com Jerrod. Eles se amam. E a vida dela, pasmem, passa a girar em torno da dele. Samantha é movida a energia sexual e ele como único parceiro e única fonte de descarga dessa energia fica como o farol da vida dela. Ela começa a sublimar esta energia sexual: comendo, daí engorda e, se apegando a um cachorrinho, seu novo objeto de carinho.
Quando perguntam para ela quando ela foi feliz, a resposta: há seis meses.
Claro que no final ela fala para Jerrod: “Darling, I love you, but I love me most”, ou algo parecido. E acaba o filme sozinha, gorda com o cachorro.
Miranda perdoa o marido traidor e volta para o Brooklin. Claro, foi tudo culpa dela ele a ter traído. Quem mandou não fazer sexo com ele? Arre!
Charlotte simplesmente perde a culpa de ser feliz, num estalo, rapidinho, superficialmente.
Carrie amarga meses detestando Big e por acaso encontra com ele e se joga nos seus braços e topa se casar na prefeitura. Claro, a culpa de tudo foi dela que o forçou a uma cerimônia de casamento que ele tinha trauma e por isso ele a abandonou.
Carrie culpada, Miranda culpada, Samantha culpada.
Foi um tal de assumir culpa que eu saí do cinema pesando quinhentos quilos e triste.
Pensei: esse é um retrato de nós mulheres nos seus quarenta anos e eu estou fudida.
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